4 de dez de 2012

Pensamentos avulsos


Estudar é uma das mais belas coisas que existem, especialmente quando estudamos aquilo que nos interessa,  mesmo as coisas desagradáveis se tornam agradáveis depois que são entendidas. O discernimento acerca das coisas demanda tempo e carinho para com o objeto de estudo, por esse motivo os jovens de hoje tem tanta dificuldade em estudar. O costume de fazer muitas coisas e as distrações habituais dessa fase são os principais rivais desses pobres seres.

Acho até engraçadinho a ingenuidade e inocência intelectual dos jovens de hoje, claro que isso os transformam em seres fracos, facilmente esmagados por aqueles que detêm a erudição. A falta de leitura e reflexão dos homens do século XXI são sua principal fraqueza, os que lêem muito, pecam por vicissitude e os que nada lêem sobre o que podem refletir? O grande problema desse século é o medo que as pessoas tem de refletir.

Por medo de pensarem se ocupam de tantas coisas e querem sempre se ver rodeadas de gente. Devido a isso vemos tantas criaturas "cândidas"* e robóticas nos dias de hoje. Refletir é algo que se faz sozinho e é extremamente importante para que nós organizemos nossos pensamentos, afim de podermos concluir algo sobre o que aprendemos,  evitando que sejamos condicionados ao erro, em suma para podermos pensar por nós mesmos.

Pensar por si mesmo é uma atividade deveras difícil, pois exige: senso crítico, estudo, reflexão, enfim coisas praticamente ausentes em grande parte das pessoas. Os que lêem muito também não pensam por si mesmo, pois como dizia Schopenhauer: "O meio mais seguro para não possuir nenhum pensamento próprio é pegar um livro nas mãos a cada minuto livre".

Porque Schopenhauer afirma isso? É fato que quando lemos um livro nós ficamos completamente passivos aos pensamentos do autor e senão pararmos para peneirar as informações, nós concordaremos com tudo que está escrito. E como iremos refletir sobre alguma coisa se  não pararmos de ler por um segundo? Por isso existem um número imenso de fanáticos, eles não filtram a informação, simplesmente absorvem tudo.

Muitos alunos são assim, meros absorvedores de conhecimento, alguns deles passam no vestibular, pois o vestibular quer apenas decoradores de detalhes e não indivíduos pensantes. O que eles fazem com a filosofia e apenas mandar que o aluno decore o que cada filosofo disse e pronto. Não vejo incetivo ao pensamento e nem vontade de se pensar por partes desses indivíduos.

Imagino a reação desses alunos se algum dia o vestibular ou alguém os convidasse a discutir empirismo e inatismo cartesiano, ao invés de decorar trechos dos livros dos respectivos representantes dessas escolas de pensamento. Os maus alunos e os decoradores de conceitos iriam tremer, pois eles nunca se deram ao trabalho de refletir sobre as obras, se esforçaram apenas para decorar o que cada livro dizia.

Os pensadores e verdadeiros possuidores do conhecimento não só sabem o que o autor diz, como também tem sua própria opinião acerca do que leem  Os verdadeiros falam dos autores clássicos como se falassem de velhos amigos ou de qualquer pessoa conhecida, com propriedade e explicitando os motivos que os levam a gostar ou desgostar de certo autor.

Apenas crianças interrompem uma leitura por ler algo que não concordam, a diversidade de pensamentos de cada autor é responsável por cultivar a diversidade de pensamento na cabeça dos verdadeiros estudantes. Me pergunto se alguém consegue ler Sócrates e depois ler Nietzsche de forma passiva, pois para qualquer pensador isso seria impossível visto que a leitura de Nietzsche obriga o leitor a pensar e se posicionar acerca das idéias de Sócrates.

Acredito que é por isso que as idéias de Nietzsche são tão fortes, ele queria mobilizar o leitor, tira-lo do seu conforto. Nietzsche não escreve para idiotas e passivos, escreve visando formar "homens do conhecimento" e não alunos decoradores que não estão nem ai para o conhecimento, alunos que querem mesmo é passar nos vestibulares e concursos visando dinheiro e algum prestigio social.

Depois de conquistar o dinheiro, esses falsos intelectuais se esquecem de tudo que aprenderam, pois não lhes servem mais.  O que será que os grandes escritores, filósofos e pintores diriam se soubessem que suas obras foram usadas unicamente como escada social? Não há uso mais repulsivo das artes do que esse, por esse motivo aqueles que desprezam completamente os estudos merecem mais respeito do que esses falsários.

Por saber disso não fico encantado em ver que tal instituição tem os alunos com as maiores notas no vestibular, maior índice de aprovação. Na verdade tenho a essas instituição até um certa repulsa, pois quanto maior é o foco dado a vestibulares, mais mecânico é o tratamento dado ao conhecimento. A instituição quer que você passe no vestibular, mas não por você e sim por eles, pois os dados positivos de aprovação no vestibular atrairão mais alunos para essas instituições, gerando assim mais dinheiro para elas.

Em algumas dessas instituições a única coisa que se salva são os professores, não todos, mas alguns que ainda se preocupam com o conhecimento e com bem estar de seus alunos. Eles também querem que você seja bem sucedido no futuro, mesmo que isso não lhes gere nenhum beneficio, o simples fato deles serem responsáveis pelo seu sucesso já basta.

A mente de um bom aluno é um recipiente vazio onde sempre há espaço para novos conhecimentos, a mente de um aluno excepcional também é um recipiente, só que esse recipiente possui peneira e descarta aquilo que por acaso foi absorvido e não é verdadeiro, não é um recipiente vazio, pois o aluno excepcional busca incessantemente o conhecimento de modo que sua mente já sabia algo a priori. As únicas drogas consumidas por um aluno excepcional são as artes e os amores, pois essas elevam o ser.

Mesmo depois de tanto estudar e de ter obtido com isso o merecido reconhecimento e dinheiro, o aluno excepcional continua estudando, pois a felicidade precisa ser conquistada diariamente, visto que não é possível obtê-la em definitivo. O aluno excepcional não se mata de estudar, estuda o necessário, os momentos em que não estudam são de descanso, reflexão e gozo e também de coisas ruins, da qual não estamos livres.

As artes são o combustível para a felicidade eterna, pois por mais tempo que nos dediquemos a ela, nunca desvendaremos todos os seus mistérios, não no nosso curto tempo de vida. O prazer obtido através de sua apreciação está entre os maiores que o homem pode sentir em vida, quando tal obra já não causa a mesma euforia que causava antes, basta procurar outra obra.

Os apreciadores da arte não tem de modo algum desprezo pela humanidade, como podem odiar os homens sabendo que os mesmo são responsáveis por coisas tão belas? Vejo a negação de Deus ou o afastamento do mesmo como o aspecto mais humanista da filosofia, o cristianismo faz o homem se sentir um verme perante a enormidade de Deus.

Voltando ao tema inicial, imagino que vocês leitores desse blog entendem do que estou falando, pois um ouvinte de heavy metal, passivo em relação ao que ouve sequer é um fã do gênero, um que aceita todo o estereótipo do estilo é semelhante a um aluno decorador e todos os exemplos dados aqui cabem nele. O melômano fã de heavy metal, pensa por si mesmo, caso contrário jamais teria tido contato com o gênero visto que ouvir esse tipo de música ainda é muito mau visto pelas pessoas em geral.

O verdadeiro ouvinte de heavy metal ouve o estilo porque gosta e está alheio ao que as outras pessoas pensam a respeito dele, sua opinião não é imutável e sempre passa pelo crivo da reflexão o que o permite separar o joio do trigo nesse gênero onde reinam os charlatões tradicionalistas.

Invito a todos os meus leitores a refletir agora que o texto se encerra.

* Faço uma referência ao personagem do livro Cândido do filosofo francês, Voltaire. Personagem conhecida por sua ingenuidade.

6 comentários:

  1. Na minha humilde opinião, acho que deveras o jovem de hoje não é pensante devido a falta de leitura, de interesse e de estudo. Apesar de culpar veementemente os pais e a sociedade adulta por isso, creio que o gosto pelo pensamento deve vir de maneira individual e não de maneira geral. Logicamente, alguns possuem mais oportunidades do que outros. Mas em uma sociedade burguesa e capitalista como a nossa, o que é incutido no jovem é que ele precisa ter dinheiro e crescer com uma carreira próspera. Mas o conhecimento fundamental, como você mesmo disse, é mera decoração. O governo não precisa de jovens pensantes que atrapalhem o poder absoluto que eles possuem, até porque isso melhoraria o país para o cidadão brasileiro e não para os políticos. Mas você pode achar que eu estou me contrariando, certo? Pois digo agora que apesar de tudo que falei acima, ainda considero possível que o jovem seja pensante nesse sistema que vivemos. Basta ele tirar alguns minutos do dia dele para sair da rotina e pensar um pouco, e se ele for uma pessoa de personalidade firme... será o suficiente para que ele comece a determinar seus pensamentos e suas bases de vida, quer seja a filosofia, a ciência ou a religião. Prova disso é a ditadura militar, que mesmo com um governo opressor e alienante (refiro-me as novelas globais e ao Jovem Guarda), tivemos jovens lutando por um país melhor.
    No quesito erudição, ainda acho que por mais jovens pensantes que tenhamos, ser erudito será algo limitado para poucos, como sempre foi. Isso necessita estudo particular e experiência de vida.
    Sou amante da literatura (principalmente o barroco, o romantismo e o modernismo brasileiro) e das artes (me agrada muito o renascentismo, que creio que um dia conseguirei pintar um quadro no formato desse movimento, e também o modernismo, talvez vindo de um interesse particular por Picasso).
    Mas erudita? Creio eu que só poderei me considerar uma quando obtiver muito mais conhecimento... na verdade nunca o obterei em sua forma completa. Lembro-me de Kant, que ao escrever a Crítica da Razão Pura, tenta responder as três perguntas fundamentais da filosofia (Que podemos saber? Que devemos fazer? Que nos é lícito esperar?). Isso aos 57 anos de idade, o que me faz pensar que o meu caminho ainda é longo, ainda necessito de conhecimento e é ele que me alimenta diariamente.
    Com relação ao que você disse, que não podemos conhecer a arte em completo, concordo plenamente. Lembro-me também de um livro de Carpeaux onde falava que ninguém conhece a história da música anterior a Idade Média, o que deixa-nos o ar do mistério que a arte nos proporciona.
    Finalizando o comentário (gostaria de escrever mais, mas como é apenas um comentário...), gostaria de dizer como é bom ver algum jovem que como eu, também se interessa pelo pensamento, pelas artes... pena não conhecer muitos pessoalmente, na verdade a única pessoa que posso ter uma conversa de vergonha sobre o assunto é minha irmã (apesar de conflitos naturais de gostos e opiniões). Ao ler seu texto, senti a necessidade de comentar. E não pare de fazer isso, continue liberando seus pensamentos para outras pessoas. O que você, eu e poucos jovens fazem atualmente (que é compartilhar tais conhecimentos com outros), é totalmente escasso.
    Desde já, um abraço!

    OBS: sou a Amanda que comenta no seu blog sobre ópera :D

    ResponderExcluir
  2. Apenas outra observação é que o erudito que cito acima é o raro caso do erudito intelectual, até porque qualquer leitor formal de língua portuguesa pode disfarçar uma erudição(referência a este comento será para Assis Chateaubriand, que foi quem definiu melhor a diferença entre erudito e intelectual).

    ResponderExcluir
  3. Olá, Amanda, percebi que era você, a última vez que acessei seu blog ele estava em reforma, espero que volte em breve. Não respondi antes porque eu ando bem ocupado e só estou conseguindo usar o computador no fim de semana.

    Concordo quando você fala que o gosto pelo conhecimento deve vir da própria pessoa, entretanto creio que a leitura poderia ajudar a despertar esse interesse. Ser um jovem pensante não é bom para ninguém, apenas para si mesmo, e hoje em dia não é difícil ser assim,ninguém vai te impedir, mas tem que ser por sua conta, se esperar incentivo melhor puxar o banquinho para esperar sentado.

    Em relação aos meus gostos literários, gosto bastante da literatura do século XIX e inicio do século XX, aprecio também muitos movimentos artísticos e o melhor livro que li esse ano foi o: Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde.

    Vai levar muitos anos para que eu me considere erudito, mas espero estar no caminho. Muito obrigado pelo comentário e elogio, e continuarei escrevendo quando tiver tempo.

    ResponderExcluir
  4. O retrato de Dorian Grey... Grande livro. Lembro-me que fiquei extasiada ao lê-lo. Seus gostos artísticos se parecem com os meus pelo que li, apesar de você ter a mente bem aberta pra música, o que é ótimo. Minha irmã puxa muito minha orelha por isso rs. Com relação ao blog, estou mudando o domínio dele, então vai levar um tempo para postar. Mas desde já aguardo seus novos textos.

    ResponderExcluir
  5. Falando em Oscar Wilde já me encontro lendo meu 5º livro dele, o famoso De Profundis, e você está certa quando fala do meu gosto musical ser amplo, mas nem sempre foi assim, houve uma época em que eu me orgulhava de não gostar de música.

    ResponderExcluir
  6. Já li, mas o meu preferido é o Dorian Grey mesmo. Acho o máximo como Wilde consegue transpor em um personagem todas as vaidades que o homem tem, a busca pela juventude e a luta para conseguí-la, algo que existirá sempre, não importa as épocas! Mas meus escritores preferidos são Machado de Assis e Victor Hugo, também Margaret Mitchell, mas ela é mais por causa do Vento Levou (que eu amo profundamente). Mas falando em gosto musical amplo, tenho dificuldade em abrir tanto a minha mente para certas músicas, mas respeito todas elas. Acho que é porque no fundo eu aindo tenho certo preconceito com a ecleticidade, mas no geral eu felicito quem consegue ser assim.

    ResponderExcluir