24 de jul. de 2026

Clássicos do Heavy Metal - Painkiller (Judas Priest)


Para dar uma ressuscitada nesse blog que foi criado quando eu tinha 15 para expressar meu amor pelo heavy metal e pela música no geral, além de compartilhar meus aprendizados sobre o gênero com o público, decidi criar uma série dissecando minhas faixas favoritas e absolutos clássicos do heavy metal, que se tornaram lendárias para a comunidade e para os fãs da banda.

 Contexto Histórico e Relação pessoal

O Judas Priest gozou de imenso sucesso e aclamação crítica na primeira metade da década de 80, rivalizando com o Iron Maiden nas discussões de melhores albuns de metal já lançados. Nesse período a banda lançou British Steel (1980), Screaming For Vengeance (1982) e Defenders Of Faith (1984), uma trinca de clássicos que sedimentou o legado o da banda.

No entanto, a segunda metade da década de 80 revelou-se muito desafiadora para a banda que começou a sofrer uma crise de identidade: a chegada do thrash metal e o sucesso radiofônico do hard rock mais melodioso (marcado por uso de sintetizadores doces) colocaram a banda em uma encruzilhada. O hoje cultuado Turbo (1986) e o contestado Ram It Down (1988) sedimentaram essa fase da banda em que os fãs acharam que o peso havia sido reduzido, sensação reforçada pelo uso de baterias eletrônicas e os lançamentos de bandas como Metallica e Slayer que angariavam um novo público dentro da cena metal.

Como se não bastasse essa fase controversa, o Judas Priest foi parar nos tribunais norte-americanos por uma suposta apologia ao suicídio contida em letras de músicas como "Better By You, Better Than Me" (do álbum Stained Class, de 1978). Essa pressão fez com que o lançamento de Painkiller fosse adiado pela gravadora Columbia até o fim do julgamento, do qual a banda foi totalmente absolvida. 

A relação da Columbia com o Judas Priest é uma das parcerias mais notáveis do Heavy Metal. Após o sucesso de crítica de Sad Wings of Destiny (1976), a antiga gravadora Gull Records enfrentava dificuldades orçamentárias e não tinha como custear os novos projetos do grupo. Foi aí que a banda resolveu assinar com a Columbia, o que elevou o patamar do grupo e permitiu alcançar maior sucesso comercial. A relação antes do lançamento de Painkiller, entretanto, não era das melhores.

De toda sorte, quando chegou a hora de lançar o single "Painkiller", a gravadora não economizou: preparou não apenas um clipe, mas sim um evento musical para redefinir a imagem e o som do Judas Priest, que havia flertado com o Hard Rock no passado e precisava de uma repaginada. O clipe foi feito sob medida para ser reproduzido pela MTV e anunciar o retorno triunfal da banda após o julgamento.

O encarregado dessa missão foi o diretor britânico Wayne Isham, que já trabalhava nos clipes do Metallica. A escolha de gravar o clipe em preto e branco de alto contraste, com estouros de luz e sombra que passam uma sensação claustrofóbica e crua, buscava romper com os clipes coloridos e neon do hard rock. Esses elementos são ainda mais destacados pela edição frenética com cortes rápidos para acompanhar os absurdos 210 BPM da música. Jogos de luzes e enquadramentos em ângulos baixos eram usados para dar uma sensação de grandeza aos músicos.

Claro que quem rouba a cena é Rob Halford, com seu visual em couro preto pesado, spikes e uma performance agressiva e intensa na qual ele empunha o pedestal do microfone como se fosse um castiçal ou uma arma (e de fato tem um momento durante o solo de Glenn Tipton que ele parece empunhar uma lança). O figurino e o cenário industrial passam a sensação de que aquela era, de fato, uma volta ao metal. Meu destaque favorito é a forma como eles apresentam os solos de guitarra.

Foi através desse clipe que conheci essa música há quase 20 anos e talvez eu tenha tido uma impressão similar à de um fã em 1990: como havia conhecido a banda naquela fase mais Heavy Metal tradicional com British Steel, não estava preparado para tanta agressividade e potência. Fiquei absolutamente impressionado com a velocidade, a extensão vocal de Rob Halford e com as seções de solo de guitarra (temos duas aqui).

Composição, Elementos musicais e minhas impressões. 

A faixa foi composta por Rob Halford (que cuidou do conceito, interpretação vocal e letras) e pela dupla de guitarristas Glenn Tipton e K.K. Downing (que compuseram os riffs e os solos devastadores). É muito importante destacar também a contribuição do novo baterista contratado pela banda para substituir Dave Holland, Scott Travis, pois foi a partir de sua improvisação no estúdio que o início da música foi criado..

A contratação de Scott Travis é a principal novidade do Judas Priest nesse lançamento. Ele veio substituir Dave Holland, que foi o baterista ideal para a banda em sua fase da primeira metade da década de 80 com seu groove reto, sólido e sem firulas, mas que não estava acompanhando as tendências do thrash metal, que exigiam um uso caprichado de bumbo duplo, velocidade e técnica. Isso já vinha levando a banda a compensar a falta de peso com samplers e baterias eletrônicas, o que gerava insatisfação em Holland. Desgastado ainda mais pelo ritmo frenético de shows, ele deixou a banda por motivos familiares e cansaço extremo. Ao chegar no Judas Priest, Scott Travis, que vinha do técnico e rápido Racer X, apresentou como cartão de visitas esse riff de bateria que abre a canção — algo impensável na antiga formação.

Para comentar os elementos musicais eu vou usar o videoclipe referenciado acima, dado que ele possui 6:08 e a música original tem 6:06, uma diferença infima que a oportunidade de visualizar o clipe mais que compensa.

Depois de uma das entradas de bateria mais icônicas da história do heavy metal, a dupla de guitarristas abre com uma nota cortante (0:15) e um riff que impõe peso e leva a música a uma velocidade imensa de 210 BPM. De cara, sentimos uma timbragem industrial que traz muita claridade e agressividade.

Halford entra logo depois (0:26) cantando no limite do seu timbre agudo. Sua voz soa rasgada, mas ainda mantém certo peso que o diferencia de um cantor de thrash metal. A dicção é soberba e impõe autoridade em cada palavra. Halford interpreta o personagem principal do disco: o anjo de metal chamado Painkiller.

Durante muitos anos, a tradução em português do título dessa música foi uma piada no Brasil, pois a tradução literal de "Painkiller" é "analgésico". No entanto, evidentemente Halford está se referindo ao personagem mítico criado para esse álbum: o anjo de metal montado em uma moto cujas rodas são serras elétricas e a carcaça é um ser draconiano. Esse personagem é o protagonista do álbum, alguém que vem à Terra nos salvar de um cenário sci-fi apocalíptico, e seu nome significa "aquele que liberta da dor".

É uma figura que mistura o sacro com a máquina. Halford o descreve como um "Metallic Messiah" que busca salvar a humanidade e exterminar o mal. Na letra, seus aspectos descritivos aparecem em:

"Faster than a bullet" - He's half man and half machine - Rides the Metal Monster/ Breathing smoke and fire - Louder than an atom bomb/Chromium plated boiling metal/Brighter than a thousand suns - He is the Painkiller/This is the Painkiller.

Seus feitos em buscar salvar a humanidade e combater o mal são descritos em:

" Planets devastated/Mankind's on its knees/A saviour comes from out the skies/ In answer to their pleas (quarta estrofe) e Evils going under deadly wheels, "With mankind resurrected/Forever to survive/Returns from Armageddon to the skies" (estrofe 9)

E por que isso é importante? Porque assim como um cantor de ópera é avaliado por sua proeza vocal ao atender à partitura, ele também é avaliado por como consegue transmitir os sentimentos e pensamentos do personagem que está interpretando. O heavy metal é herdeiro dessa tradição de vocalistas tenores técnicos, com a diferença de que eles escrevem sua própria partitura e desenham as intenções de cada personagem.

É por essa razão que o canto de Halford é tão cortante, agudo e violento, ao mesmo tempo em que mantém uma intensidade na qual ele pontua cada palavra: ele é o Painkiller. Um aspecto importante de notar nessa primeira seção vocal é que as guitarras não ficam passivas tocando riffs; elas respondem com "mordidas" rápidas nos finais dos versos.

Podemos reparar que o Judas Priest abandonou certos purismos do metal ao adotar samplers industriais que aumentam o peso da música e reforçam seu caráter narrativo, como a explosão notada entre (1:00 - 1:08).

Por volta de (1:23 - 1:31), Halford solta um agudo violento com uma sustentação impressionante. Ele vai reproduzir essa extrema proeza novamente ao sustentar um agudo crescente dos (5:39 - 5:59) — um dos momentos tecnicamente mais difíceis da história do metal, que exige uma técnica refinada de respiração e sustentação, terminando ainda em um vigoroso "PAIN!". É um dos meus momentos favoritos.

A partir de (1:25), as guitarras abrem o som e sustentam acordes mais longos que dão a sensação de que a música está decolando. Isso abre espaço para o primeiro duelo de solos que surge até de forma precoce, após a declamação em tom mais grave de Halford da sexta estrofe, que termina com um agudo dividido em estúdio entre uma frequência agudíssima e outra que explora a região média.

Dito isso, entramos em um dos melhores momentos da música: o solo de guitarra, precedido por uma cama opressiva de bateria deliciosa a partir de (2:09). A timbragem industrial e brilhante das guitarras faz parecer que estamos ouvindo trovões, explosões e metais rangendo que exploram pontos muito prazerosos no registro agudo..

Do ponto de vista melódico o Glenn Tipton surge como o arquiteto musical com linhas fluidas e desenhadas, tocando com velocidade, mas de forma que lembra um violino elétrico. Eu pessoalmente adoro as mudanças cromáticas com saltos agudos e o pizzicato delicado (3:07-3:09). Na segunda metade do solo ele não tem dó em fazer as guitarras chorarem e gemerem com agudos estridentes que soam como aviões caindo (o termo técnico é dive bombs), oferecendo um contraste perfeito ao início da seção.

Outro momento que gosto de destacar é a intensificação da música a partir de mais um agudo absurdo de Halford em (4:14), em que os riffs se intensificam e a bateria dá um tom opressivo entre (4:23 - 4:42). Isso abre espaço para uma seção mais cadenciada na qual Halford surpreende o ouvinte explorando seu registro médio depois de ter abusado do agudo em toda a música (4:42 - 5:00). Para quem não o conhece, fica a surpresa de como aquela voz tão aguda consegue impor tanta autoridade no registro médio — um contraste perfeito que termina em mais agudos cortantes e mostra a versatilidade do vocalista (5:01 - 5:11).

E aí entra um dos melhores trechos da música: um solo caótico de encerramento quando ninguém está esperando mais nada (5:11 - 5:26). Se destaquei a proeza vocal do Rob Halford no agudo que finaliza a música, a cama que a bateria oferece para esse momento é de um extremo bom gosto.

Considerações finais. 

Painkiller é uma canção que muitos apontam incorporar elementos do thrash metal ao som do Judas Priest, com os vocais mais gritados, agudos cortantes e a introdução do bumbo duplo. Mas a influência do speed metal me parece igualmente presente, principalmente nas guitarras, que preservaram as dinâmicas mais melodiosas típicas do heavy metal nos solos, ainda que tenham buscado um maior peso nos riffs.

É importante destacar que o Judas Priest não copiou nenhuma banda: a timbragem industrial dialoga com a temática do grupo e a presença de um vocalista como Rob Halford os diferencia muito das outras bandas de thrash metal, que não possuíam vocalistas com a mesma proeza técnica e vocais limpos como ele.

 

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