24 de jul. de 2026

Clássicos do Heavy Metal - Painkiller (Judas Priest)


Para dar uma ressuscitada nesse blog que foi criado quando eu tinha 15 para expressar meu amor pelo heavy metal e pela música no geral, além de compartilhar meus aprendizados sobre o gênero com o público, decidi criar uma série dissecando minhas faixas favoritas e absolutos clássicos do heavy metal, que se tornaram lendárias para a comunidade e para os fãs da banda.

 Contexto Histórico e Relação pessoal

O Judas Priest gozou de imenso sucesso e aclamação crítica na primeira metade da década de 80, rivalizando com o Iron Maiden nas discussões de melhores albuns de metal já lançados. Nesse período a banda lançou British Steel (1980), Screaming For Vengeance (1982) e Defenders Of Faith (1984), uma trinca de clássicos que sedimentou o legado o da banda.

No entanto, a segunda metade da década de 80 revelou-se muito desafiadora para a banda que começou a sofrer uma crise de identidade: a chegada do thrash metal e o sucesso radiofônico do hard rock mais melodioso (marcado por uso de sintetizadores doces) colocaram a banda em uma encruzilhada. O hoje cultuado Turbo (1986) e o contestado Ram It Down (1988) sedimentaram essa fase da banda em que os fãs acharam que o peso havia sido reduzido, sensação reforçada pelo uso de baterias eletrônicas e os lançamentos de bandas como Metallica e Slayer que angariavam um novo público dentro da cena metal.

Como se não bastasse essa fase controversa, o Judas Priest foi parar nos tribunais norte-americanos por uma suposta apologia ao suicídio contida em letras de músicas como "Better By You, Better Than Me" (do álbum Stained Class, de 1978). Essa pressão fez com que o lançamento de Painkiller fosse adiado pela gravadora Columbia até o fim do julgamento, do qual a banda foi totalmente absolvida. 

A relação da Columbia com o Judas Priest é uma das parcerias mais notáveis do Heavy Metal. Após o sucesso de crítica de Sad Wings of Destiny (1976), a antiga gravadora Gull Records enfrentava dificuldades orçamentárias e não tinha como custear os novos projetos do grupo. Foi aí que a banda resolveu assinar com a Columbia, o que elevou o patamar do grupo e permitiu alcançar maior sucesso comercial. A relação antes do lançamento de Painkiller, entretanto, não era das melhores.

De toda sorte, quando chegou a hora de lançar o single "Painkiller", a gravadora não economizou: preparou não apenas um clipe, mas sim um evento musical para redefinir a imagem e o som do Judas Priest, que havia flertado com o Hard Rock no passado e precisava de uma repaginada. O clipe foi feito sob medida para ser reproduzido pela MTV e anunciar o retorno triunfal da banda após o julgamento.

O encarregado dessa missão foi o diretor britânico Wayne Isham, que já trabalhava nos clipes do Metallica. A escolha de gravar o clipe em preto e branco de alto contraste, com estouros de luz e sombra que passam uma sensação claustrofóbica e crua, buscava romper com os clipes coloridos e neon do hard rock. Esses elementos são ainda mais destacados pela edição frenética com cortes rápidos para acompanhar os absurdos 210 BPM da música. Jogos de luzes e enquadramentos em ângulos baixos eram usados para dar uma sensação de grandeza aos músicos.

Claro que quem rouba a cena é Rob Halford, com seu visual em couro preto pesado, spikes e uma performance agressiva e intensa na qual ele empunha o pedestal do microfone como se fosse um castiçal ou uma arma (e de fato tem um momento durante o solo de Glenn Tipton que ele parece empunhar uma lança). O figurino e o cenário industrial passam a sensação de que aquela era, de fato, uma volta ao metal. Meu destaque favorito é a forma como eles apresentam os solos de guitarra.

Foi através desse clipe que conheci essa música há quase 20 anos e talvez eu tenha tido uma impressão similar à de um fã em 1990: como havia conhecido a banda naquela fase mais Heavy Metal tradicional com British Steel, não estava preparado para tanta agressividade e potência. Fiquei absolutamente impressionado com a velocidade, a extensão vocal de Rob Halford e com as seções de solo de guitarra (temos duas aqui).

Composição, Elementos musicais e minhas impressões. 

A faixa foi composta por Rob Halford (que cuidou do conceito, interpretação vocal e letras) e pela dupla de guitarristas Glenn Tipton e K.K. Downing (que compuseram os riffs e os solos devastadores). É muito importante destacar também a contribuição do novo baterista contratado pela banda para substituir Dave Holland, Scott Travis, pois foi a partir de sua improvisação no estúdio que o início da música foi criado..

A contratação de Scott Travis é a principal novidade do Judas Priest nesse lançamento. Ele veio substituir Dave Holland, que foi o baterista ideal para a banda em sua fase da primeira metade da década de 80 com seu groove reto, sólido e sem firulas, mas que não estava acompanhando as tendências do thrash metal, que exigiam um uso caprichado de bumbo duplo, velocidade e técnica. Isso já vinha levando a banda a compensar a falta de peso com samplers e baterias eletrônicas, o que gerava insatisfação em Holland. Desgastado ainda mais pelo ritmo frenético de shows, ele deixou a banda por motivos familiares e cansaço extremo. Ao chegar no Judas Priest, Scott Travis, que vinha do técnico e rápido Racer X, apresentou como cartão de visitas esse riff de bateria que abre a canção — algo impensável na antiga formação.

Para comentar os elementos musicais eu vou usar o videoclipe referenciado acima, dado que ele possui 6:08 e a música original tem 6:06, uma diferença infima que a oportunidade de visualizar o clipe mais que compensa.

Depois de uma das entradas de bateria mais icônicas da história do heavy metal, a dupla de guitarristas abre com uma nota cortante (0:15) e um riff que impõe peso e leva a música a uma velocidade imensa de 210 BPM. De cara, sentimos uma timbragem industrial que traz muita claridade e agressividade.

Halford entra logo depois (0:26) cantando no limite do seu timbre agudo. Sua voz soa rasgada, mas ainda mantém certo peso que o diferencia de um cantor de thrash metal. A dicção é soberba e impõe autoridade em cada palavra. Halford interpreta o personagem principal do disco: o anjo de metal chamado Painkiller.

Durante muitos anos, a tradução em português do título dessa música foi uma piada no Brasil, pois a tradução literal de "Painkiller" é "analgésico". No entanto, evidentemente Halford está se referindo ao personagem mítico criado para esse álbum: o anjo de metal montado em uma moto cujas rodas são serras elétricas e a carcaça é um ser draconiano. Esse personagem é o protagonista do álbum, alguém que vem à Terra nos salvar de um cenário sci-fi apocalíptico, e seu nome significa "aquele que liberta da dor".

É uma figura que mistura o sacro com a máquina. Halford o descreve como um "Metallic Messiah" que busca salvar a humanidade e exterminar o mal. Na letra, seus aspectos descritivos aparecem em:

"Faster than a bullet" - He's half man and half machine - Rides the Metal Monster/ Breathing smoke and fire - Louder than an atom bomb/Chromium plated boiling metal/Brighter than a thousand suns - He is the Painkiller/This is the Painkiller.

Seus feitos em buscar salvar a humanidade e combater o mal são descritos em:

" Planets devastated/Mankind's on its knees/A saviour comes from out the skies/ In answer to their pleas (quarta estrofe) e Evils going under deadly wheels, "With mankind resurrected/Forever to survive/Returns from Armageddon to the skies" (estrofe 9)

E por que isso é importante? Porque assim como um cantor de ópera é avaliado por sua proeza vocal ao atender à partitura, ele também é avaliado por como consegue transmitir os sentimentos e pensamentos do personagem que está interpretando. O heavy metal é herdeiro dessa tradição de vocalistas tenores técnicos, com a diferença de que eles escrevem sua própria partitura e desenham as intenções de cada personagem.

É por essa razão que o canto de Halford é tão cortante, agudo e violento, ao mesmo tempo em que mantém uma intensidade na qual ele pontua cada palavra: ele é o Painkiller. Um aspecto importante de notar nessa primeira seção vocal é que as guitarras não ficam passivas tocando riffs; elas respondem com "mordidas" rápidas nos finais dos versos.

Podemos reparar que o Judas Priest abandonou certos purismos do metal ao adotar samplers industriais que aumentam o peso da música e reforçam seu caráter narrativo, como a explosão notada entre (1:00 - 1:08).

Por volta de (1:23 - 1:31), Halford solta um agudo violento com uma sustentação impressionante. Ele vai reproduzir essa extrema proeza novamente ao sustentar um agudo crescente dos (5:39 - 5:59) — um dos momentos tecnicamente mais difíceis da história do metal, que exige uma técnica refinada de respiração e sustentação, terminando ainda em um vigoroso "PAIN!". É um dos meus momentos favoritos.

A partir de (1:25), as guitarras abrem o som e sustentam acordes mais longos que dão a sensação de que a música está decolando. Isso abre espaço para o primeiro duelo de solos que surge até de forma precoce, após a declamação em tom mais grave de Halford da sexta estrofe, que termina com um agudo dividido em estúdio entre uma frequência agudíssima e outra que explora a região média.

Dito isso, entramos em um dos melhores momentos da música: o solo de guitarra, precedido por uma cama opressiva de bateria deliciosa a partir de (2:09). A timbragem industrial e brilhante das guitarras faz parecer que estamos ouvindo trovões, explosões e metais rangendo que exploram pontos muito prazerosos no registro agudo..

Do ponto de vista melódico o Glenn Tipton surge como o arquiteto musical com linhas fluidas e desenhadas, tocando com velocidade, mas de forma que lembra um violino elétrico. Eu pessoalmente adoro as mudanças cromáticas com saltos agudos e o pizzicato delicado (3:07-3:09). Na segunda metade do solo ele não tem dó em fazer as guitarras chorarem e gemerem com agudos estridentes que soam como aviões caindo (o termo técnico é dive bombs), oferecendo um contraste perfeito ao início da seção.

Outro momento que gosto de destacar é a intensificação da música a partir de mais um agudo absurdo de Halford em (4:14), em que os riffs se intensificam e a bateria dá um tom opressivo entre (4:23 - 4:42). Isso abre espaço para uma seção mais cadenciada na qual Halford surpreende o ouvinte explorando seu registro médio depois de ter abusado do agudo em toda a música (4:42 - 5:00). Para quem não o conhece, fica a surpresa de como aquela voz tão aguda consegue impor tanta autoridade no registro médio — um contraste perfeito que termina em mais agudos cortantes e mostra a versatilidade do vocalista (5:01 - 5:11).

E aí entra um dos melhores trechos da música: um solo caótico de encerramento quando ninguém está esperando mais nada (5:11 - 5:26). Se destaquei a proeza vocal do Rob Halford no agudo que finaliza a música, a cama que a bateria oferece para esse momento é de um extremo bom gosto.

Considerações finais. 

Painkiller é uma canção que muitos apontam incorporar elementos do thrash metal ao som do Judas Priest, com os vocais mais gritados, agudos cortantes e a introdução do bumbo duplo. Mas a influência do speed metal me parece igualmente presente, principalmente nas guitarras, que preservaram as dinâmicas mais melodiosas típicas do heavy metal nos solos, ainda que tenham buscado um maior peso nos riffs.

É importante destacar que o Judas Priest não copiou nenhuma banda: a timbragem industrial dialoga com a temática do grupo e a presença de um vocalista como Rob Halford os diferencia muito das outras bandas de thrash metal, que não possuíam vocalistas com a mesma proeza técnica e vocais limpos como ele.

 

19 de fev. de 2024

Meus Albuns favoritos de 2019

 1º Weyes Blood - Titanic Rising


A obra-prima de Weyes Blood que vinha de ótimos e intrigantes lançamentos foi meu álbum favorito de 2019, é algo entre dream pop e chamber pop com uma produção impecável que se torna ainda mais exemplar com os vocais incríveis de Natalie Laura que beiram o canto lírico. Avalie por si mesmo o que essa voz é capaz de produzir ouvindo canções como "Movies", "Something To Believe" e "Andromeda", apenas para citar alguns highlights do álbum


2º Sharon Van Etten - Remind Me Tomorrow

Saímos de uma obra-prima para falar de outra, Remind Me Tomorrow é o maior álbum da gloriosa carreira de Sharon Van Etten e a leva para outro patamar. Nesse álbum, Sharon Van Etten abandona em parte os instrumentos orgânicos que formavam seu indie folk inconfundível e investe em roupagem eletrônica e atmosférica que somada a sua visceralidade interpretativa criam um dos álbuns mais fortes da década passada.

Remind Of Tomorrow é o divisor de águas na discografia da cantora, "Jupiter 9", "Hands" são canções em que o som eletrônico distorce e cria uma atmosfera opressiva e nunca vista antes nas músicas da cantora, "Comeback Kids", "No One's Easy To Love" mostram a sensibilidade da cantora em criar hits synthpops e ,por fim, "Seventeen" é a música definitiva de coming of age da primeira juventude para os 30 anos.

 

3º Angel Olsen - All Mirrors

Angel Olsen é um camaleão sônico, capaz de se adaptar a qualquer gênero, se em My Woman (2016) a guitarra cantava solta em composições de indie rock de tirar o fôlego e no futuro comporia o álbum quase definitivo no indie folk e country, Big Time (2022), aqui estamos diante de um dos maiores representantes do gênero confusamente conhecido "art pop", esse gênero que une ao pop elementos sinfônicos e alternativos do dream pop, trip hop, indie pop, trilha sonora, dentre outros.

A riqueza estética marca esse álbum da Angel Olsen, são arranjos ríquissimos e belos que transportam o ouvinte para uma dimensão intima da interprete. Desafio o ouvinte a não ser arrastado pela grandiloquência da faixa-titulo ou pela delicadeza de uma "New Love Cassete" com seu romantismo potente.


4º Michael Kiwanuka - KIWANUKA


Ser um dos maiores soulmans da sua geração não é uma coisa que iria satisfazer um cantor genial como Michael Kiwanuka, se ele lançou alguns dos maiores álbuns do new soul da década passada com uma sensibilidade que incluia a folk song nas suas composições, aqui o ativismo racial marcante faz com que ele adentre ainda mais elementos de funk, rap e afrobeat em canções de soul poderosas.

KIWANUKA definitivamente é a obra-prima da carreira do cantor inglês, eu ainda não fui capaz de superar a pungência de uma canção como "I've Been Dazed", nem mesmo os instantes finais de "You ain't the Problem" com seu delicado sintetizador, são momentos como esses que elevam um álbum para além de algo bom para o status de obra definitiva.


5º Jamila Woods - Legacy! Legacy!

Estamos falando de um álbum em celebração a excelência negra do século XX, XXI e Frida Kahlo por uma das representantes mais refinadas do movimento R&B alternativo da década passada, que no entanto não tem medo de passar pelos elementos mais fundamentais da música negra como o rap, hip hop, soul, funk na construção de um som intrincado.

É difícil não se emocionar com as rendições que ela faz para homenagear cada uma das figuras destacadas no álbum, meu destaque vai para Basquiat e Eartha.


6º Candlemass - The Door To Doom


 É uma delícia ver uma banda veterana como o Candlemass com bala na agulha depois de 11 álbuns lançados e sem a necessidade de provar mais nada a ninguém. A verdade é que esse é um dos melhores álbuns de 2019, mostrando as ligações da sonoridade doom metal com o heavy metal tradicional, e o que dizer do solo do Tony Ionmi em "Astorolus - The Great Octopus"? que delícia.

 

7º Julia Jacklin - Crushing


Aqui nasceu minha obsessão com a Julia Jacklin e suas composições eivadas de uma sinceridade poética impressionante, o que dizer de alguém que é capaz de confessar seu horror a pressão para festejar com uma leveza ímpar? ("Pressure To Party") Ou de dizer como as palavras xoxas de alguém querido podem fazer toda aquela empolgação inicial morrer? (Turn me Down) e é possível amar alguém sem as mãos e oferecer apoio incondicional?

Porém a pergunta que fica é se é possível continuar te amando depois de te conhecer tão bem? (Dont Know How to Keep Loving you), um hino para se cantar a plenos pulmões enquanto dirige para o horizonte, e cantar a plenos pulmões eu fiz. Sobre a sonoridade, se trata de indie rock com folk delicioso.


8º Hands Habits - Placeholder


Se no álbum que comentamos anteriormente nós tínhamos uma positividade sincera e delicada, em Placeholder a melancolia toma de conta, mas é uma melancolia deliciosa guiada pela voz de Meg Duffy que é penetrante como uma adaga de gelo.

O conjunto de canções é muito forte, faixas como "What Lovers Do", "Placeholder", "Wildfire" variam entre a delicadeza da interpretação de Meg Duffy a intensidade máxima de alguém que vive com apenas metade do pedaço de um coração pode proporcionar.

Esse é o álbum perfeito para ouvir no dia dos namorados como pessoa solteira.

 

9º Lana Del Rey- Norman Fucking Rockwell

 

Esse álbum não estava originalmente no meu top 10 de 2019, mas passados quase cinco anos que a Lana Del Rey lançou Norman Fucking Rockwell está claro que naquele momento ela despontou para um status superior na música pop, deixando de ser uma cantora indie adorada por um séquito de fãs fiéis para uma das maiores notas da história da Pitchfork para um álbum vocalizado por uma mulher.

A verdade é que esse álbum é completamente coeso em sua proposta estética e narrativa, Jack Antonoff limpou a casa para que a voz éterea e monotom da Lana pudesse brilhar em faixas excelentes, com destaque para a viagem psicodélica em Venice Bitch, uma das maiores composições da carreira da Lana Del Rey.

Em termos vocais temos aqui o auge de amadurecimento da Lana Del Rey, se em alguns momentos de gravações anteriores parecia se estar ouvindo uma inteligência artificial de primeira linha, aqui cada trecho é pontuado por vocalizações profundas e poderosas que animam letras que já viraram clássico, como trechos de "Fuck It I Love You" e "Cinnamon Girl".

O álbum mais uma vez segue uma linha melancólica com raros momentos de alegria que são reforçados por uma narrativa imagéticamente bem construída e consistente. É o que conhecemos da Lana lapidado na última essência.


10º Jenny Lewis - On The Line



Fico aqui pensando que a Jenny Lewis poderia ser um personagem do universo da Lana Del Rey, temos aqui uma mulher ruiva obcecada com a sonoridade country folk e com old hollywood que são homenageados ao longo das composições de On The Line

A verdade é que Jenny Lewis é um outro tipo de cantora, elegante, que aposta numa sonoridade orgânica e organização impecável para nos transportar para esse cenário mágico onde a melancolia da lugar a uma bela nostalgia.

Esse álbum me traz muita alegria, é maravilhoso ver uma cantora tão segura das suas habilidades e composições tão ricas e ao mesmo tempo agradáveis, mesmo cantando sobre desperdiçar a Jenny Lewis aborda o tema com tanta leveza que é contagiante e o que dizer das onomatopeias irresistíveis?

Muito feliz em ter a Jenny Lewis no meu top 10 


Menções mais que honrosas

 

11- Soen -Lotus


 Soen foi uma das obsessões no heavy metal em 2019, é uma espécie de prog metal que transita oras para o rock progressivo e outras para um metal experimental, é difícil comparar com qualquer coisa. Acho que são os vocais limpos e cristalinos que ajudam a dar coesão para um som que é bastante intrincado e complexo, quase sem refrões, exceto para a incrível "Covenant".

Na verdade, aqui tem tudo que eu amo no Heavy Metal.


12º Billie Eilish - When We All Fall Asleep, Where Do We Go?

Meu deus! o que dizer desse álbum que já não foi dito? É o verdadeiro sweep em todas as categorias do Grammy, um dos álbuns pop mais influentes da história, marco definitivo de uma geração, glitch pop chega ao mainstream?

Não há dúvidas que a produção desse álbum é cristalino como uma taça de vinho, mas Billie Eilish permite que todos os sentimentos mais intensos e antissociais possam virar música pop, abalando as bases do pop polido e comportado das divas pop que a precedem.

É algo novo, original, uma lufada de ar fresco que a Billie trouxe para a música mainstream, seu vocal pode não ser mágico como de outras divas pop, mas contém um aspecto sugestivo e melancólico que casa bem com as músicas apresentadas nesse repertório e hoje sabemos que seu poder interpretativo se extende para além das músicas do seu universo com sua contribuição em Barbie.

 13º Lizzo - CUZ I LOVE YOU!!!!


 Esse álbum é a vitória que precisavamos, o feminismo gordo estava com tudo no mainstream e a responsável era uma cantora de pop soul com uma voz potente capaz de animar um estádio inteiro. Lizzo é um colosso vocal e esse álbum é uma delícia do início ao fim que só fica melhor se voce ler as letras empoderadoras e militantes da diva.

Tem gente que vai dizer que esse álbum não é tão bom pela sua simplicidade, mas quem disse que música precisa complicada, me entregue um delicioso R&B com vocais poderosos e refrões flamejantes e temos tudo que precisamos.

Esse álbum só não foi mais aclamado pelo azar de cair no mesmo ano em que Lana Del Rey e Billie Eilish estavam dando as cartas na música pop, mas foi o suficiente para colocar a Lizzo no mapa como uma das superestrelas do pop.

14º Yola - Walk Through Fire


 Vamos continuar com mulheres negras gordas e maravilhosas, Yola é um das melhores representantes do country soul que eu já ouvi, sua voz é tão poderosa e delicada que é capaz de ressuscitar os mortos. Foi aqui que conheci seu enorme talento em canções como "Lonely The Night" para se cantar a plenos pulmões, me emocionei com a faixa-título que fala das dificuldades de lidar com racismo e gordofobia e com a delicadeza e sofisticação que ela pode empregar a canções como "Rock Me Gently" e "Shady Grove"

Duvida? Abra seu aplicativo de reprodução musical e fique de queixo caído com os vocais poderosos da primeira faixa do álbum, "Faraway Look".

15º - Lacuna Coil - Black Anima

Não se engane com a posição desse álbum na lista, esse é um dos meus favoritos, eu cantei a plenos pulmões, eu fui na turnê, comprei camisa, realizei meu sonho de conhecer a banda e talvez seja um dos primeiros momentos que eu me conectei 100% a um show. A verdade é que 2020 tinha tudo para dar certo, mas não deu.

Sobre o álbum, Lacuna Coil até tentou se modernizar e soar como uma banda de new metal com elementos de gothic metal e industrial, mas apartir do Dark Adrenaline percebeu que o negócio mesmo era apostar em mais peso, mais escuridão, letras mais sinceras e potentes, e Black Anima segue exatamente esse caminho com vocais guturais de Andrea, riffs pesados e violentos e letras sobre saúde mental.

O que é "Save Me", "Veneficium"? Existe um dialogo mais honesto com a depressão e os sentimentos mais sombrios? E como essas canções são potentes no show, o vocal da Cristina Scabbia tem potência e peso para carregar essas melodias longe, é incrivel como o tempo só aperfeiçoou sua habilidade em sustentar essas canções poderosas.

16º Terno Rei - Violeta

 

Eu também possuo uma relação bem afetuosa com o Terno Rei, que em 2019 despontou como uma das melhores bandas de música alternativa do Brasil com seu deliciosamente melancólico Violeta. Esse álbum viraria um clássico instantâneo da banda com canções meio post punk como "Solidão de Volta", pitadas de dream pop e rock alternativo.

É um caminhão de hits, é muito feliz constatar como a banda foi bem sucedida em criar essa coesão musical, Violeta é um álbum que será lembrado por muitos anos e eu com certeza me diverti muito cantando as músicas a plenos pulmões nos shows do grupo em Brasília em 2022.

17º Brvnks - Morri de Raiva

 

Não é só gringo que sabe fazer indie rock delicioso de ouvir e aqui temos o adicional da raiva ser o elemento predominante no disco da Brvnks que deixa os garotos receberem toda sua ira num álbum que é tão bom que passa voando.

Também tive a oportunidade de prestigiar a Brvnks em sua turnê desse disco e que experiência divertida, como não sair cantando "Tired", música sobre ser amolado até perder a paciência", "Dont" que é sobre um rancor poderoso contra um menino que te trocou por alguém com "curly hair" que caia tão bem para tantos momentos.

Eu gosto da sinceridade de um trecho como "I can understand if you dont love me back but i hate you for that" e é exatamente isso que recebemos nesse álbum, não há pretensiosidade e locubrações, apenas riffs de guitarra e muita mágoa com a vida.

18º Hatchie - Keepsake

 

Ao longo desse texto me vejo profundamente desafiado em cada explicação de porque amo esses álbuns, como explicar o amor e a paixão que me desperta as batidas hipnóticas e a tensão em "Stay With Me" uma das minhas músicas favoritas da vida.

Para mim a Hatchie atualizou o amor que sentia pelo pop eletrônico da Katy Red adicionando a formula pitadas de dream pop e shoegaze e criando esse universo de música eletrônica tão delicioso, é tão bom poder ouvir boa música eletrônica com alguém que tem a sensibilidade pop lapidada ao máximo.

Eu gosto de algumas definições que a crítica deu:

Michael Watkins of Under the Radar called it "a record destined to sit at the beginning of a promising legacy in years to come, as Hatchie continues to create jangling sonic comfort food far into the future."

The Line of Best Fit critic Craig Howieson stated, "Keepsake has an inexplicable familiarity even as it bursts with new ideas. It is a document capable of throwing us into our own pasts, the perfect score for the movies we make in our minds."

LAura Dzubay of Consequence of sound wrote, "The industrial and atmospheric elements of the album all convey a sense of searching and often of rushing away from one thing and toward another. Even the blurred cover image of Hatchie suggests a feeling of constantly being in motion. It is through this searching and continual movement that Hatchie etches her own lines to define her persona through her music, constantly propelling herself and her ideas in new directions and trusting that we'll keep up."

 

19 Stella Donnely - Beware Of The Dogs

 

Em 2019 surgiu Stella Donelly como uma das grandes apostas do indie rock com sua belíssima sensibilidade musical e lírica, Beware Of The Dogs é um dos álbuns mais coesos e organizados que ouvi no ano.

Todas as canções invocam esse cenário indie com uma leveza e riffs muito bem colocados em conjunto com a voz inquisitiva e melodiosa nos questiona sobre comportamentos ligados a masculinidade.

Como não amar canções como "Tricks", "Mosquito" e "Boys Will Be Boys" todas destinadas a demonstrar o incomodo com os comportamentos mais tóxicos da masculinidade sem perder em nenhum momento as linhas melódicas, o que gera um certo contraste entre o tom girlie das músicas e as condutas repugnantes que estão sendo descritas.

Outro ponto de força do álbum para além da voz da Stella, é a sua capacidade de compor riffs marcantes que elevam o nível das canções

 

20 Carly Rae Jepsen - Dedicated

 

Carly Rae Jepsen deve ter ficado com as costas cansadas de tanto salvar o pop na década passada, Dedicated é a continuação do aclamadíssimo Emotion de 2015 e aqui a diva pop mostra que continua afiada na composição de música pop com sua voz que parece talhada precisamente para composições delicosas.

A produção polida e o electropop que acompanha os vocais de Carly dão a toada animada que esse álbum precisa. Falando nas músicas nós precisamos falar do mega hit que é "Everything He Needs"? Na verdade o sucesso desse álbum é que a Carly é uma erudita de música pop, aqui tem synthpop, bubblegum pop, dance pop, tudo que amamos ouvir em canções que descem muito bem.








Melhores Albuns de 2022

 1- Angel Olsen - Big Time

Simplesmente uma catarse emocional que prova que Angel Olsen é virtuosa em qualquer gênero que se propõe a adentrar. Aqui temos uma masterclass em Indie Folk.

 

2- Machine Head - Of Kingdom And The Crown


Depois de um pequeno tropeço no disco anterior, o Machine Head voltou extremamente afiado nesse registro.


3- Weyes Blood - 


Assim como a Angel Olsen, estamos presenciando uma artista no auge das suas capacidades, quando pensamos que o álbum de 2019 já era sua obra prima, Weyes Blood lança esse disco em que aprofunda ainda mais nos delicados tópicos de que sempre tratou tudo isso enquanto corta belas melodias oníricas com sua voz etérea e poderosa.


4- Sylvaine - Nova


Eu tive a oportunidade de resenhar essa obra-prima onde detalhei melhor minhas impressões. Basta dizer que Sylvaine vai bem além da onda de blackshoegaze e cria um estilo que lhe é bastante próprio.


5- Sharon Van Etten - 

Dificil dar sequência ao seu melhor e mais grandioso álbum lançado em 2019, mas Sharon Van Etten com sua voz mágica e profunda foi capaz de com uma abordagem mais minimalista criar uma das obras mais sensíveis do ano.


6- Alvvays - Blue Rev


Finalmente podemos estourar o champagne, foram 5 anos entre o excelente Antissocialites e esse álbum e podemos dizer que Alvvays saiu do patamar de grande promessa e se transformou em uma das melhores bandas de indie rock com esse lançamento.

 

7- Nova Twins - Supernova

É sempre excelente se deparar com sopros de ar fresco no cenário metal, pessoas que não tem medo de brincar com aquilo que é alternativo, fundindo rap com punk rock e levadas de new metal.


8- Soccer Mommy - Sometimes, Forever

Eu sou um stan de Soccer Mommy e aqui ela atingiu talvez seu apíce em perfomance, o que dizer de canções como Shotgun, Dont Ask Me, Bones? É uma metralhadora do melhor que existe em indie rock triste.


9- Jessie Baylin - Jersey Girl


Que saudades da querida, Jessie Baylin, sempre famosa por sua abordagem pop jazz classuda, retornou em 2022 com esse álbum elegantérrimo cheio de belas melodias e acompanhados pela voz levemente esfumaçada e sedosa de Jessie Baylin. Espero que ela ganhe mais reconhecimento no futuro.


10- Charli XCX - Crash


É justo deixar o melhor álbum pop de 2022 fora de um top 10? E quando esse é o melhor lançamento da carreira de Charli XCX, uma das defensoras desse gênero tão combalido na atualidade. Em Crash, Charli XCX, lapidou seu hyperpop até o auge, se em álbuns anteriores sempre havia momentos não inspirados que obscureciam verdadeiros hits pop, o mesmo não acontece em Crash que é bom do início ao fim.


Menções mais que honrosas

 

11- Mitski - Laurel Hell


É incrivel constatar como algumas das melhores cantoras de indie pop não se intimidam com lançamentos após um grande sucesso. Laurel Hell é intenso e ainda mais romântico que seu antecessor. Um colosso


12- Beach House - Once Twice Melody


Sinceramente, o que resta ao Beach House nos provar? Quando penso em dream pop não há outro grupo que vem a mente e a cada álbum a dupla parece disposta a dobrar a aposta em inovação. Se no álbum anterior brincavamos com distorções industriais e atmosfera sombria, em Once Twice Melody o duo brinca com contrastes de luz e sombra para renovar seu já conhecido mundo onírico.


13- Ghost - 


Será que vai ter um ano em que o Ghost não vai aparecer na minha lista de melhores álbuns? Parece uma missão impossível esperar um álbum do Ghost que não seja um caminhão de hits mais cantaroláveis do cenário metal. A banda divide opiniões, mas o fato é que o Ghost é a maior banda de metal dos nossos tempos e está no seu mais completo auge.


14- Beach Bunny - Emotional Creature


Beach Bunny era para ser só um grupo de pop punk com vocalista feminino divertido e despretensioso, porém a qualidade dos riffs e vocais carregados de emoção até o talo da Lili Trifilio são poderosos demais para ser ignorados. Que bom que os adolescentes tem uma banda desse calibre para ouvir.


15- Pale Waves - Unwanted


Quem não gosta de Pale Waves está completamente errado, mas são aqueles erros que mais se lamentam do que causam fúria. Mais um grupo de pop punk que arrebenta em todo lançamento, com a saída do armário da vocalista, Heather Baron-Gracie, ainda viraram uma das bandas lésbicas mais icônicas e aqui temos um caminhão, sem trocadilho intencional, de hits lesbionicos, um verdadeiro show do femceldom. É impossível ouvir sem bater a cabeça e cantar os refrões mais contagiosos que gripe sazonal.


16- Alice Glass - PREY//IV


O amor é belo? Não no mundo de Prey//IV onde o relacionamento nada mais é do que um processo de mutilação violento e abusivo, algo que destrói completamente o individuo. Não se engane com a voz aguda e delicada de Alice Glass, conhecida por seu trabalho em Crystal Castles, aqui ela empresta seus vocais a canções dilacerantes do mais obscuro dark glitch pop.

 

17- Hatchie - Giving The World Away


 Hatchie é uma das queridinhas desse som pop eletrônico inglês, que no caso dela adiciona pitadas de dream pop e shoegaze as já conhecidas melodias eletrônicas. Aqui a direção é para um escapismo mais iluminado e uplifting o que é uma lufada de ar fresco nesse cenário depressivo que vemos na música alternativa. Mas não se engane, sons como Quicksand tem lá sua pegada melancólica.

 

18- Halestorm - Back From the Dead

 

Acho que eu quase adquiri um torcicolo batendo cabeça para músicas como Strange Girl, The Steeple, Wicked Ways, sinceramente os vocais agressivos e poderosos da Izzy Hale são a prova de que ela é uma das mais interessantes frontwomans do metal nos tempos atuais.

 

19-  Oceans Of Slumber - Starlight And Ash

Outro banda que é impossível não incluir nos meus melhores a cada lançamento, Oceans Of Slumber tem hoje a melhor vocalista do metal, se você não acredita basta ouvir uma canção colossal como "The Hanging Tree". O som dessa banda é quase impossível de classificar, ao invés de seguir um caminho sinfônico, o doom metal dessa banda foi para um caminho progressivo dialogando com vários gêneros como dream pop e até folk como na canção "House of the Rising Sun".

 

20- Astronoid - Radiant Bloom



Death Metal Melódico progressivo e psicodélico? Tame Impala se fosse uma banda de speed progressive metal? É quase impossível classificar o que faz o Astronoid, mas é tão cativante e hipnótico, é tudo que eu gosto no metal e seu poder de ser um dos estilos mais ricos da música. É simplesmente bom demais.


Menções honrosas

21- Rosalia - Motomami


22- Cult Of Luna - The Long Road North


23- Beyoncé - Renaissance


24- Ethel Cain - Preachers Daughter

25- Caroline Loveglow - Strawberry